Jornalista lembra: "Pela Libertadores vale tudo"

Paulista

Jornalista lembra: “Pela Libertadores vale tudo”

Presenciar os jogadores posarem para a foto oficial com uniforme de gala na escadaria do hotel em Quito antes de a delegação seguir para o aeroporto e embarcar de volta ao Brasil, em 16 de fevereiro de 2006, foi um sinal de alívio. Eu havia vencido a maratona para cobrir aquele jogo histórico. Era o único repórter de texto brasileiro a testemunhar o empate da véspera, o 1 a 1 com o El Nacional, no primeiro jogo oficial da história do então quase centenário clube de Jundiaí. Mas chegar até os pés daquela escadaria não foi fácil. Editor de Esportes do recém-lançado BOM DIA Jundiaí (o jornal tinha exatos dois meses de vida), ficou comigo a tarefa de viajar para o Equador – os repórteres Carlos Alcialti Neto e Fábio Massa seguiriam para os jogos em Buenos Aires (River Plate) e Assunção (Libertad).

Leia também: Autor do 1º gol internacional do Paulista relembra feito histórico

No domingo antes do confronto em Quito pulei cedo da cama para estar no início da manhã no saguão de embarque do Aeroporto Internacional de Guarulhos e voar junto com a delegação. Só não havia atentado a um detalhe básico: meu passaporte tinha vencido uma semana antes. Imperdoável, o time foi e eu fiquei. Como explicar para a direção do jornal tamanho desleixo: não checar a documentação para uma viagem internacional? “Se vira”, disse Mário Evangelista, editor-chefe do jornal, talvez sem saber como levar a “notícia” para a direção.

Amanheci no dia seguinte na Polícia Federal em São Paulo, cheio de documentos em mãos para implorar pela confecção de um passaporte novo. A missão poderia ser viável, mas não garantida, se apresentasse a passagem aérea remarcada, o que consegui em uma agência de viagens “boca de porco” no Centro da capital paulista, após desembolsar R$ 1,2 mil do bolso. A taxa para emissão do passaporte foi paga dez minutos antes de o posto da PF fechar e, na terça cedo, lá estava eu no mesmo balcão de embarque de 48 horas antes. Cheguei no hotel onde estava hospedado o Paulista pouco antes de a equipe seguir para o estádio Olímpico Atahualpa. Sim, eu vi o Abrahão marcar o gol de empate naquele 1 a 1. Vi o sofrimento do zagueiro Rever sem ar no vestiário, por conta da altitude de 2.850 metros.

Foi um jogo memorável, raçudo. O Paulista mostrava que não era um mero time desconhecido. Para o equatoriano que estava na porta do estádio depois do jogo, havia sido zebra. Para nós de Jundiaí, que acompanhamos o título da Copa do Brasil no ano anterior, pequeno era a equipe dele.

Se não consegui ir até lá com o time, voltei com ele. Presenciei o atacante Muñoz ter problemas no aeroporto por, segundo ele, ser colombiano, o que atrasou o voo. Eu vi o Paulista ser guerreiro, valeu a pena o sofrimento e o prejuízo, mais do que garantir meu emprego, eu conseguira presenciar a história. E quando finalmente cheguei em casa, o porteiro do prédio mostrava o jornal com meu nome na capa. “Meu amigo, a gente faz qualquer coisa por uma Libertadores”, disse a ele.

Por Fábio Pescarini, ex-editor de esportes do Bom Dia 


Comente
Subir